No mês de janeiro, o Manchester City aterrisou em solo brasileiro durante uma semana para a primeira parada do Tour das Taças em 2024. O objetivo do clube, campeão de cinco competições em 2023, é fazer com que os fãs possam estar mais perto dos troféus conquistados no ano anterior.
Era também a primeira vez que a taça de Campeão do Mundo de Clubes, tão almejada pelos times brasileiros, seguia junto com as outras quatro no Tour. O City havia conquistado o troféu um mês antes, ao vencer o Fluminense por 4 a 0 no torneio realizado na Arábia Saudita.
Assim, as taças da Premier League, da FA Cup, da Champions League, da Super Copa e do Mundial da Fifa visitaram durante cinco dias as cidades de Salvador e São Paulo.
Cauã contava os dias para o Tour chegar ao Brasil, mas sabia que, por conta das dimensões continentais do país, morava longe de ambas as cidades onde os troféus seriam exibidas. Natural de Rio Grande, Rio Grande do Sul, Cauã se mudou aos 3 anos para Itajaí, cidade no litoral de Santa Catarina. Foi uma escolha da família, já que o pai, o pescador Sandro, viu uma melhor oportunidade de trabalho por lá. A mãe, Lisandra, professora de ensino fundamental, concordou. Mudaram-se então os quatro: o pai, a mãe, Cauã e o irmão gêmeo, Luã.
Uma vida de superações
Mas a vida de Cauã, de 26 anos, seja em Rio Grande ou em Itajaí, sempre foi de muita luta. Ele nasceu com hidrocefalia, doença neurológica onde o líquido cefalorraquidiano ( mais conhecido como líquor) se acumula nos ventrículos, as cavidades do cérebro. Cauã conta que, como a mãe estava grávida dos gêmeos, ele foi o segundo a ser retirado pelos médicos. Segundo ele, foi a espera dentro da barriga da mãe que ocasionou a falta de oxigenação e excesso de líquido no cérebro. O irmão gêmeo não sofre dessa condição.
Isso trouxe a Cauã diversos problemas motores. Seus movimentos das pernas e braços são muito limitados. Mesmo após diversas cirurgias na cabeça, na pernas, no quadril e nas costas, ele usa uma cadeira de rodas para se locomover.
Paixão pelo city
Faz 13 anos que Cauã é fã incondicional dos Blues. “Começou pelo videogame, depois notícias, [o Elano] ajudou muito e assim foi crescendo, pouquinho, pouquinho, e a gente virou esse maluco”, conta.
Cauã acompanha todos os jogos, os resultados, celebra as conquistas e discute “amigavelmente” com o irmão gêmeo, Luã, que torce para o rival do City, o Manchester United. Dado o histórico recente dos times, dá para dizer que Cauã tem celebrado mais do que o irmão nos últimos anos.
Partiu sampa
O incentivo para encarar a jornada veio do apoio dos amigos do Cauã. Todos se conheceram pelo Cityzens BR, a torcida oficial do Manchester City no Brasil.
Por causa das condições de Cauã, o plano inicial seria viajar para São Paulo de avião. Lucas Souto, presidente do Cityzens BR, contou que já tinha o plano traçado. “Quando o City foi campeão do Treble (a Tríplice Coroa), eu falei ‘cara, as taças vão vir, vou te trazer’”.
Mas uma série de problemas pessoais e financeiros ao longo do ano passado, inclusive próximo à data da viagem, inviabilizaram o Clube de Torcedores de arcar com os custos da passagem. “A gente fazia cálculo e um monte de coisa, e deu tudo errado”, lamenta Lucas.
Mas Cauã estava decidido. Nada disso seria um impeditivo. Se as taças do City estavam no Brasil, o sonho continuava vivo.
A opção ainda disponível e menos custosa era a de Cauã pagar tanto o ônibus quanto a estadia em São Paulo do próprio bolso. Mas como ele estava desempregado, utilizou as poucas reservas que tinha e ainda pediu dinheiro emprestado de parentes.
A distância entre Itajaí e São Paulo é de mais de 600 quilômetros. Seria como se um motorista na Inglaterra decidisse cruzar o país e, saindo de Londres, dirigisse para o norte até chegar à cidade de Dunbar, na Escócia.
Seriam horas e mais horas dentro do ônibus, o que significariam um sofrimento muito grande para o Cauã. Para dificultar ainda mais a jornada, o veículo não era adaptado para cadeirantes. Isso exigiu que o torcedor viajasse com um acompanhante. Foi aí que outro amigo, Wilian Barros, entrou na jogada. O colega, que trabalhou com Cauã no passado, faltou do serviço para garantir que a viagem acontecesse.
Wilian sabia do tamanho do desafio. “Eu tive que fazer um trabalho braçal, carregar o Cauã pra colocar ele no ônibus, tirar, mudar ele de lugar, ajudar ele a ficar de pé no banheiro”. Mas ele garante que o esforço físico foi irrelevante frente à satisfação de garantir que o torcedor de Itajaí chegasse no local da exibição das taças. “A gente é amigo, contruímos um laço muito forte. Tenho o Cauã como um irmão para mim”, disse.
Ambos embarcaram às 11 da noite da quinta-feira, dia 11 de janeiro. Nas pausas nos postos pelo caminho, Cauã não conseguia descer como os outros passageiros. Ele evitou de tomar água e não comeu nada durante o trajeto. “[Foram] mais ou menos 13 horas de viagem. [Ainda] pegou acidente [na estrada] e demorou mais”, resumiu Cauã.
Os amigos chegaram em São Paulo por volta de uma da tarde de sexta. Seguiram da rodoviária direto para o local do evento do Manchester City. Só que além da chuva intensa caindo em São Paulo, os serviços de carro por aplicativo cancelaram o pedido da corrida diversas vezes ao saber que teriam que levar um cadeirante.
frente a frente com os “big Five”
Finalmente, a dupla chegou ao Beach Arena Real Parque, local onde as taças estavam sendo exibidas. Os outros integrantes do Cityzens BR saudaram Cauã, e carregaram ele e a cadeira de rodas pelas escadas. Daí para frente, Cauã foi só emoção. “Foi espontâneo, comecei a chorar. Olhei pro lado, vi o Elano e aí não consegui segurar”.
Isso mesmo, a lenda do City, Elano Blumer, foi um dos primeiros a saudar Cauã. Ele presenteou o torcedor com uma camisa autografada do City. O uniforme branco com detalhes em grená era justamente o que Cauã pensava em comprar. “Deus estava reservando ela pra você”, disse Elano.
Cauã tirou várias fotos com o craque e também posou em frente aos troféus com os amigos. Mas os olhos dele brilharam mesmo ao ver a “Orelhuda”. “A Champions League sempre foi objeto de desejo meu, já comprei algumas brigas por causa dela e hoje eu estou aqui vendo ela de perto. É surreal.” Ele também ficou um bom tempo admirando o mais recente troféu do City, o de Campeão Mundial de Clubes.
“Foi uma sensação muito boa [ver o Cauã junto com a gente]”, disse Lucas, que juntamente com os amigos, se surpreendeu com a coragem e a capacidade de Cauã de superar todas as dificuldades.
Em meio a tanta felicidade, Cauã acabou esquecendo de dizer para a mãe que tinha chegado bem. Isso foi resolvido com um vídeo gravado pela equipe de produção de conteúdo do Manchester City, onde ele pode tranquilizar a dona Lisandra: “Manhê, estou vivo, estou sem voz, mas tá tudo certo. Estou aqui com o Elano, os caras do City, e é isso”, disse Cauã.
Elano ainda reforçou: “Ô mãe, ‘tamo’ aqui, ‘tamo’ bem, hein!”
o real significado do tour das taças
No evento do dia seguinte, Cauã conseguiu um lugar especial perto de Elano para assistir à vitória de 3 a 2 do City contra o Newcastle na Premier League. O torcedor ainda abriu o coração: “É muito grande o que o City está fazendo, não é qualquer clube que faz o que o City está fazendo. A gente tem que valorizar isso.”
Segundo Cauã, o caminho de volta para Itajaí não foi tão penoso quanto a vinda. O torcedor estava mais leve e o sonho, realizado. E um dos torcedores mais fiéis do City no Brasil provou que os desafios da vida são pequenos quando a paixão fala mais alto.
“Acredite, lute, faça o máximo possível de esforço e não desista. Vale a pena. Come on, City!