André Luis Fontana, de Curitiba, acompanhou in loco o último jogo de Fernandinho pelo Manchester City e nos conta essa história.

Todos os torcedores do Manchester City guardam com muito carinho no coração as lembranças daquele 22 de maio de 2022. Sem sombra de dúvidas, o momento mais marcante do ano que se termina. Provavelmente, cada um que esteve no Etihad naquela tarde de domingo tem uma história para contar, detalhes dos momentos que antecederam a partida, a aflição com os gols do Aston Villa, até a explosão de alegria e êxtase com a virada do City e o título da Premier League. Para André Luis Fontana, brasileiro nascido em Curitiba, aquele dia jamais sairá da memória. 

O planejamento da viagem de André até Manchester começou cerca de dois meses antes daquela rodada derradeira. E pode-se dizer que foi mais um daqueles acasos da vida. O pai de André, Rubens Fontana Filho, é maratonista internacional. Em maio, ele participaria de uma maratona em Edimburgo, capital da Escócia, e convidou o filho para acompanhá-lo. André prontamente aceitou o convite e sugeriu uma pequena mudança no voo de ida, indo no final de semana anterior, para tentar encaixar um jogo de futebol na Inglaterra.

NO ETIHAD  : André e o pai, Rubens, na partida contra o Aston Villa.
NO ETIHAD : André e o pai, Rubens, na partida contra o Aston Villa.

“Nisso eu não tinha visto calendário, não tinha visto a rodada que ia ser, não tinha visto nada, só a esperança de ver um jogo”, revelou André. 

Quando ele olhou a tabela, não restaram mais dúvidas. O jogo escolhido seria Manchester City x Aston Villa, última rodada da Premier League e possivelmente uma partida que poderia dar o título aos Blues. No entanto, engana-se quem acha que essa foi a grande motivação para a viagem. 

“A escolha não foi por possivelmente ver um título do City, eu achei que o título até viria rodadas antes. Mas quando eu soube que era a despedida do Fernandinho do City, ali eu tive certeza de qual jogo eu iria assistir na Europa.” O ex-jogador e ídolo dos Cityzens atua hoje no futebol brasileiro, no mesmo clube em que começou a carreira, o Athletico Paranaense, coincidentemente o time de coração de André Fontana. 

a expectativa no dia

Com ingresso em mãos, por meio de um pacote que incluía almoço, transfer do restaurante para o estádio, entradas para a partida e ainda retorno ao mesmo restaurante após o jogo, começou a aventura de André e seu pai. Ele recorda que quando comprou os ingressos, o City tinha quatro pontos de vantagem em relação ao Liverpool. 

“Eu falei pro meu pai, pode ser que a gente chegue lá e seja jogo só de comemoração, pode ser que o título venha uma rodada antes. E do jeito que eu comprei, no outro final de semana o City tropeçou e o Liverpool encostou, ficando assim até a última rodada.” 

Com o duelo contra o Aston Villa marcado para o domingo de tarde, André desembarcou em Manchester, junto com o pai, apenas um dia antes, no sábado. No dia do jogo, eram tantas preocupações que a cabeça mal conseguia pensar na expectativa para a partida. Ansiedade para saber se o ingresso estava correto, para achar o lugar no estádio e também a dificuldade em se adaptar ao inglês britânico. Ao adentrar as arquibancadas do Etihad e se dar conta que assistiria o jogo praticamente atrás de um dos gols, a expectativa de André claramente estava definida. 

PRÉ-JOGO : André e o pai na entrada do Etihad antes da partida decisiva.
PRÉ-JOGO : André e o pai na entrada do Etihad antes da partida decisiva.

“Era de alguma maneira tentar encontrar o Fernandinho. Um cara que eu acompanhei a carreira inteira, desde quando ele surgiu no Athletico em 2003, 2005 na Libertadores, no Shakhtar e depois no City. Eu estar presente no estádio, na despedida dele, pra voltar pro meu time foi algo que mexeu muito comigo.” 

“Tenho que tentar arranjar alguma brecha para no mínimo se fazer notado pelo Fernandinho, com a camisa vermelha e preta do Athletico”, acrescentou André. 

o desenrolar do jogo

Com o apito inicial, começaram as emoções de um enredo cujo nem o melhor dos autores poderia criar. O Aston Villa sai na frente ainda no primeiro tempo com um gol do lateral-direito Matty Cash, enquanto Liverpool e Wolverhampton empatavam por 1 a 1 em Anfield. No segundo tempo, o drama aumenta quando Philippe Coutinho aumenta a vantagem dos visitantes em um contra-ataque. Dois a zero para o Aston Villa e a tensão de que a qualquer momento o Liverpool poderia fazer um gol e assim passar na frente na tabela. 

André lembra de cada detalhe da partida. Recorda-se que ainda no intervalo, Pep Guardiola mexeu na equipe, deixando o time mais ofensivo com a entrada de Zinchenko, justamente no lugar de Fernandinho. E continua viva em sua memória como foram aqueles minutos no Etihad após Coutinho fazer o segundo gol do Villa. 

“A sorte era que o Liverpool não estava ganhando. A impressão que eu tive é que o estádio sentiu sim o segundo gol, mas o primeiro gol do City não tardou muito a sair. Foi coisa de cinco minutos de jogo. Não deu nem tempo da torcida começar a vaiar, como fazem no Brasil às vezes, e não ouvi nenhuma vaia.” 

Como o próprio André diz, depois do primeiro gol de Gundogan, tudo mudou da água para o vinho para os Cityzens. 

“O estádio realmente infla, a torcida começa a participar muito mais do que vinha participando, foi uma avalanche. Na hora que sai o primeiro gol, 100% dos jogadores viram pra torcida, pedem para a torcida vir pro jogo, demonstrando uma confiança absurda. Eu não sei explicar, não foi só uma comemoração de gol, foi um “agora vai”. A sintonia torcida e time foi um negócio absurdo de se sentir.” 

O que aconteceu depois todos os torcedores do City já sabem de cor e salteado, mas para André, o mais impressionante foi ver a reação de seu pai após o terceiro gol do City, marcado por Gundogan aos 36 minutos do segundo tempo. 

“Eu não vejo meu pai comemorar gol do Athletico na Arena da Baixada, ele é daqueles que vê o jogo sentado, emoção zero. Quando o City virou ele estava pulando ao meu lado. Você se deixa vencer pelo clima do estádio, foi uma final de campeonato, animação total”, relembra André. 

a despedida de fernandinho

Quando o jogo termina, a emoção toma conta do estádio e muitos torcedores acabam invadindo o gramado para comemorar com os jogadores e a comissão técnica. Depois que todos retomaram seus assentos no Etihad, começou a cerimônia em comemoração ao título, com o troféu, medalhas e melhores momentos da temporada no telão. 

Logo depois, vem a homenagem a Fernandinho, que estava se despedindo do clube após 264 jogos na Premier League e cinco títulos da competição. Para muitos, o maior brasileiro da história do Campeonato Inglês. 

“Foi uma hora de homenagem ao Fernandinho. E ninguém arredou o pé do estádio, 55 mil pessoas ficaram uma hora e meia após o fim do jogo para ver o Fernandinho. E isso mostrou o tamanho dele para o Manchester City, e eu não tinha noção disso”, confessa André. 

ATÉ LOGO  : A homenagem ao ídolo Fernandinho!
ATÉ LOGO : A homenagem ao ídolo Fernandinho!

“Eu acho que nenhum jogador do Athletico teria o que o Fernandinho teve aí. Jogadores de todas as épocas aplaudindo ele e fazendo corredor para ele passar. Família no telão homenageando ele. Ele deu uma volta olímpica, foi aplaudido pelo estádio inteiro e nesse momento tenho certeza que ele me viu.” 

No meio do mar azul, estavam o pai de André, com a camisa do Brasil, e o próprio André trajado de vermelho e preto, as cores do seu time do coração e onde Fernandinho seria anunciado como reforço de peso cerca de dois meses depois, no seu retorno ao futebol brasileiro. André se emociona ao relembrar o momento em que Fernandinho passa atrás do gol durante a volta olímpica. 

“Eu estava na segunda fileira. Não é possível que ele olhou ali e não viu aquele cara com uma camisa vermelha e preta. Mas ele estava extremamente emocionado, era o momento dele e eu entendi isso também.” 

Sobre a homenagem do clube ao ex-camisa 25, André é só elogios. 

“Fantástica a homenagem que ele teve do Manchester City. Eu sabia que ele era grande, sabia que ele era ídolo, mas não imaginava que ele era eterno.”  

diferença entre torcidas

Não é segredo que as torcidas brasileiras e britânicas se comportam de forma diferente nos estádios de futebol. Cultura, clima, língua, tudo isso interfere na maneira em que apoiam seus times. E isso não passou despercebido por André naquele confronto histórico entre City e Aston Villa. 

“É muito diferente do Brasil. Aqui nós estamos acostumados com uma torcida organizada que comanda o estádio inteiro. Ali não, qualquer um que quer puxar música puxa, e o estádio vai atrás.” 

“Às vezes eu ouvia algum canto pré-jogo e pensava que deveria ser a organizada deles, vamos tentar localizar eles. Não conseguia. Todo mundo participa muito mais do jogo.”  

Uma das coisas que mais chamou a atenção de André foi a energia no estádio, principalmente personificadas nas músicas entoadas pelas arquibancadas do Etihad. 

“A energia é diferente. No Brasil, é um tom de torcer muito mais agressivo, muito mais ofensivo, tentando jogar o adversário para baixo e não necessariamente o seu time para cima. E no Etihad todas as músicas são enaltecendo o clube e os jogadores, incentivando mais.” 

“Eu ouvi música para o Fernandinho, De Bruyne, para o Ederson. Um ambiente de estádio realmente diferente”, conta André. 

o significado da partida

Quando perguntado sobre o que esse jogo in loco no Etihad significa em sua vida, André não hesita em responder. 

“O dia que meu pai se for, e Deus queira que esse dia ainda demore muito, mas se alguém me pedir para relembrar cinco momentos que eu vivi com meu pai. Sem dúvida nenhuma esse é meu top 3, fácil. Eu resumo talvez como a melhor experiência que eu tive ao lado do meu pai na minha vida.” 

Embora o jogo não fosse um jogo de título do Athletico, o time do coração, André confessa que não tinha como ficar alheio a tudo que viveu naquele 22 de maio de 2022. 

“A atmosfera que eu encontrei. A história do jogo em si só. Sendo a despedida de um cara que eu idolatro. Existem jogos do Athletico que estão em uma prateleira. Tem outros dois momentos que eu vivi com meu pai e serão eternos. Um foi a final da copa das confederações, Brasil e Espanha, no Maracanã, em 2013.” 

E qual o outro? 

“O outro, sem dúvida alguma, que eu vou levar para minha vida, foi o dia que eu e meu pai vimos a despedida do Fernandinho no estádio do Manchester City”, finaliza André.