Josep Guardiola escolheu Gabriel Jesus. Gabriel Jesus escolheu Josep Guardiola. Poder aprender com uma das mentes mais brilhantes da história do futebol foi fator decisivo para o Manchester City superar a concorrência de outros grandes clubes europeus na contratação do jovem atacante da Seleção Brasileira, de 19 anos.
No último sábado, diante do Tottenham, Pep se tornou o sexto treinador de Gabriel desde a estreia profissional do atacante, em 7 de março de 2015, quando Oswaldo de Oliveira, na época técnico do Palmeiras, satisfez o desejo da torcida e deu a primeira chance ao então garoto de 17 anos – ele entrou aos 27 minutos do segundo tempo da vitória por 1 a 0 sobre o Bragantino, no Allianz Parque, pelo Campeonato Paulista.
“Foi um processo natural, de muita evolução”, conta Oswaldo em entrevista exclusiva. “A minha primeira lembrança do Gabriel é de quando eu cheguei ao Palmeiras, em 2015, e quis saber quais jogadores da base poderiam vir a participar da equipe de cima”, acrescenta. “Foi exatamente na época que estava sendo jogada a Copa São Paulo de Juniores e ele já estava se destacando, fazendo gols, muito bem nas partidas. Aí eu o chamei para treinar conosco, o que foi um ponto de partida”.
A estreia como profissional, em março de 2015 (Foto: Cesar Greco/Palmeiras)
Oswaldo se impressionou imediatamente. “Ele já era aquele jogador prodígio que nós sabíamos desde o começo que em pouco tempo iria romper algumas barreiras que outros jogadores demoram um pouquinho mais para superar”, relata. “E a minha principal lembrança do período que treinei o Gabriel aconteceu logo no começo do nosso trabalho juntos”, revela. “Fizemos um jogo-treino e, na primeira jogada, o zagueirão adversário chegou duro no Gabriel. Ele levantou e pediu a bola de novo, foi para cima, mas sem arrogância. Mostrou para o cara que não estava intimidado, fez um gol na sequência e também não foi provocar. Marcou o gol e continuou jogando”.
“A maior qualidade do Gabriel é a valentia e isso traz junto todas as outras qualidades. Ele não se intimida com nada. Faz tudo normalmente, espontaneamente, sem que qualquer peso psicológico interfira no futebol dele. Além disso, é veloz, inteligente, determinado, bem educado e disciplinado. Mas o carro-chefe que carrega tudo isso é a coragem que ele tem”, atesta o treinador, responsável por oferecer ao agora novo reforço do City o sabor de ser atleta profissional.
No entanto, Oswaldo de Oliveira não teve a alegria de presenciar o primeiro gol de Gabriel Jesus. Substituto de Oswaldo, Marcelo Oliveira foi quem viu a promessa chorar de emoção ao balançar a rede do ASA, pela Copa do Brasil, em 15 de julho de 2015. Mais do que isso, a competição nacional serviu de palco para Gabriel conseguir o que os torcedores aguardavam desde a base: a titularidade.
Marcelo Oliveira recorda por que decidiu apostar no jovem promissor na fase seguinte do torneio, mesmo fora de casa diante do Cruzeiro, então bicampeão brasileiro. “Ele já vinha participando dos jogos às vezes, mas não tinha sido titular em uma sequência maior, e o que o fez titular foram os treinamentos” diz, antes de elogiar Gabriel. “Ele se dedica muito e é muito interessado em melhorar a sua condição, por isso se aplica bastante nos complementos de treinamento. Naquela semana, ele fez treinos muito bons, eu o coloquei contra o Cruzeiro e neste jogo ele foi um dos destaques”.
O técnico e a torcida do Palmeiras não esquecem o que o camisa 33 fez na vitória por 3 a 2 no Mineirão: participou de todos os gols do time, com uma assistência e dois tentos, sendo um deles deixando zagueiro e goleiro estatelados no chão. “A partir dali ele se tornou um titular e mostrou a sua importância no Palmeiras”, relembra Marcelo, que conduziu a equipe ao título daquela Copa do Brasil – a primeira conquista de Gabriel, já dono absoluto de umas vagas no time.
Marcelo comandou o Verdão na conquista da Copa do Brasil de 2015 (Foto: AP)
O menino do Jardim Peri, periferia de São Paulo, terminou 2015 campeão e com 7 gols em 37 partidas pelo Palmeiras. Se a temporada de estreia profissional foi de esperança, em 2016 veio a consagração. Sob o comando de Cuca, Gabriel Jesus triplicou seu número de gols (21) e conquistou o Campeonato Brasileiro como goleador do Palmeiras (12 gols) e como craque da competição. Tudo depois de o sucessor de Cuca deslocar o menino da ponta para ser a posição de centroavante.
Mas por que Cuca bancou um jogador de 1,75m como referência ofensiva? “Primeiro porque eu gosto de um 9 que tenha força e velocidade. Não gosto do 9 que fique parado”, explica o técnico campeão brasileiro. “Ele sabe fazer a referência e tem a individualidade, então muitas vezes ele era a solução individual do nosso problema. Quando bem marcado, ele ganhava a bola de um e de dois e construía uma jogada”.
Fundamental na mudança de patamar na carreira da até então promessa, Cuca ainda o aconselhou a escolher o Manchester City entre tantos clubes interessados. “A conversa foi ali”, contou, apontando para um dos campos da Academia de Futebol do Palmeiras, onde concedeu esta entrevista no fim de 2016. “Ele tinha algumas opções, entre elas a Inter de Milão, o Real Madrid, o Barcelona e o City. Ele me perguntou o que eu pensava, e eu perguntei o que ele pensava”.
“Aí ele falou que o Guardiola era o único de todos os técnicos que tinha falado com ele, e por isso se sentiu mais à vontade. Então eu disse que a o destino tinha de ser onde fosse se sentir mais à vontade”.
Foi com Cuca que Gabriel atingiu outro patamar na carreira (Foto: Cesar Greco/Palmeiras)
Além do elemento Pep, Cuca vê encaixe entre o estilo de jogo de Gabriel e o futebol inglês. “O Manchester City agora tem um jogador que reúne força e técnica. Não é um jogador que não gosta do contato, pelo contrário. Ele gosta do contato, então ele vai se dar muito bem na Premier League”.
A vertiginosa transformação de Gabriel no melhor jogador em atividade no seu país o levou não só à seleção olímpica que conquistou no Rio de Janeiro o ouro inédito, mas também já o alçou rapidamente ao posto de camisa 9 da Seleção Brasileira – já são cinco gols e quatro assistências em seis partidas.
“Não é nenhuma surpresa, até porque ele foi sempre muito precoce”, analisa Micale, líder da comissão técnica no ouro olímpico. “Ele subiu para o profissional da sua equipe com 17 anos, foi convocado por mim para o Mundial sub-20 (em 2015) sendo o jogador mais jovem do torneio, jogou e foi destaque. Também era o mais novo da equipe olímpica. Ele sempre queimou etapas”.
Micale conversa com Gabriel e cia. durante a final olímpica (Foto: AP)
Depois de brilhar envergando o verde e o amarelo, Gabriel Jesus já empolgou a torcida sky blue mesmo com minutos em campo no empate com o Tottenham, no último fim de semana. Sábado tem mais contra o Crystal Palace, em Londres, pela Copa da Inglaterra.