O telefone toca no Tremembé, bairro da zona norte de São Paulo:
“Oi Mamede, tudo bem? É o Gabriel”.
“Qual Gabriel?”.
“Gabriel Jesus, o Tetinha. Quero doar algumas chuteiras para o Pequeninos do Meio Ambiente”.
Era setembro de 2016. A mais nova contratação do Manchester City, já titular da Seleção Brasileira, procurou o seu primeiro técnico, José Francisco, mais conhecido como Mamede, para contribuir com o projeto voluntário cujo alcance atual é de 150 crianças envolvidas na prática do futebol.
A ligação emocionou Mamede. “Aí que nós vemos a humildade dele. Mesmo no auge, lembrou-se de nós e fez a alegria da criançada com 250 pares de chuteiras novas”.
Foi sob as orientações de Mamede que, dos oito aos 15 anos, Gabriel Jesus começou a sua trajetória no Pequeninos do Meio Ambiente e que mais tarde o levaria a Manchester. De um campo de terra batida e um pão com mortadela oferecido pelo Pequeninos do Meio Ambiente a cada treino ao Etihad Stadium e à Premier League, a maior liga do mundo.
Com a camisa que Gabriel vestiu na conquista do ouro olímpico em mãos, Mamede recebeu o Manchester City no local em que Gabriel Jesus já se destacava desde pequeno. Nesta entrevista a seguir, o primeiro treinador – e também importante educador – da joia brasileira revela detalhes da formação do novo pupilo de Pep Guardiola. Confira!
Quais são as suas primeiras lembranças do Gabriel?
Gabriel chegou aqui com a chuteira debaixo do braço com o Fabinho, um amigo inseparável. Fizemos com ele o que estamos acostumados a fazer com todas as crianças que vêm para cá. Acolhemos ele com muito carinho e já dava para ver logo nos primeiros treinos que ele tinha um futuro brilhante. Isso eu sempre falava para ele, que ele seria profissional um dia.
Por que ele escolheu o Pequeninos?
As crianças chegam pelo boca a boca, uma fala para a outra, e assim vai. Nós deveríamos ter um setor de marketing, mas não temos (risos).
O que fazia o Gabriel ser diferente desde pequeno?
O Gabriel sempre foi diferenciado na velocidade, na gana de vencer. Costumo falar que o Gabriel nunca gostou de perder nem par ou ímpar. Ele ficava muito nervoso quando perdia jogo. Tanto é que, depois de um certo tempo, nós o apelidamos de Tetinha, porque ele falava “Pô, Mamede, o jogo está muito fácil, está uma teta” e o jogo já estava 5 a 0 mesmo.
Como que ele se destacava em relação aos demais?
Nos campeonatos, ele sempre foi o melhor jogador, artilheiro do time, o mais disciplinado, tudo. O Gabriel nunca faltou a um treino. Ele era sempre o menino que ficava na frente, puxando a fila. Notas escolares boas, nós nunca tivemos problemas com relação à escola, porque certos campeonatos exigem boas notas. E cada nota não satisfatória é um jogo sem jogar.
Existia a relação de educador com ele, além de primeiro técnico?
Fico lisonjeado, porque o Gabriel fala que o Pequeninos foi um pai para ele. E o Gabriel era diferenciado em todos os sentidos. Nós sempre priorizamos o lado humano do jogador. Chegamos a levar cesta básica na casa dele, porque ele era tão pequenininho que a cesta era muito grande para ele carregar. Trocávamos a chuteira dele, assim como fazíamos com os outros meninos. É um trabalho que eu faço com o maior prazer.
Qual a sua análise da evolução meteórica do Gabriel, que saiu da várzea e em dois anos no profissional já está em um dos maiores clubes do mundo?
Falava para ele do potencial que ele sempre teve, então ele focava muito e, graças a Deus, tudo começou aqui nesse campo de terra. Ele estava se desenvolvendo tão bem que até comentei com ele quando ele estava surgindo no Palmeiras “Gabriel, tenho certeza que você vai ser um profissional no Palmeiras, que você vai para a Seleção Brasileira, que você vai para a Europa”. E até recentemente disse a ele que tudo que eu havia falado tinha acontecido, então eu teria de falar mais alguma coisa para acontecer também. Eu disse “Gabriel, com as orientações do Guardiola, tenho certeza que você vai ser Bola de Ouro”.
O que faz você ter essa convicção?
O Gabriel é estrelado, cara. A estrela dele é muito grande. Você sabe aquele jogador que fica na área e, de repente, a bola sobra para ele e ele faz o gol, e os outros não fazem? Existe algo que o ilumina e que vai iluminá-lo sempre.
Gabriel se mostra muito centrado, mesmo jovem. Por que isso acontece?
Primeira coisa: família. Tenho certeza que a mãe dele, a Dona Vera, é uma pessoa muito centrada, então ela participa ativamente da vida dele, e isso é muito bom. Então ele fica mais tranquilo. Falo para ele que ele tem de ser um leão dentro de campo, mas fora de campo é completamente diferente. Aí é que entram a família, os amigos e o Pequeninos do Meio Ambiente na vida dele. Ele tem um carinho muito especial por nós. Não tem como dar errado, cara, eu tenho certeza. Vai ser Bola de Ouro.
Imagino que depois que o Gabriel explodiu, o Pequeninos ficou muito famoso, e o interesse das crianças em jogar aqui aumentou bastante...
A procura aumentou bastante, e às vezes nós ficamos até com um pouco de medo, porque temos uma cota de mortadela e pãozinho para retirar no supermercado, e a demanda está muito grande.
Qual é o seu sentimento, como formador de atletas e pessoas, de ser o primeiro técnico do Gabriel?
Costumo dizer que, se não fosse a falta de material esportivo, nós poderíamos ter feito até mais com as crianças. Mas infelizmente não conseguimos oferecer tudo o que queremos, então fazemos o possível. Eu, particularmente, fico muito emocionado de ver tudo isso. O Pequeninos do Meio Ambiente fica cheio de orgulho.
Você tem uma lembrança mais marcante com o Gabriel?
Tive várias passagens com o Gabriel, algumas dentro do meu Fusca, porque nós vamos aos jogos dentro do meu carro. Mas principalmente lembro de gols. O Gabriel fez muitos, mas muitos gols aqui, uma pena não ter essas imagens.
Você viu o Gabriel aqui e acompanhou os títulos no Palmeiras. O que você espera dele no City?
Como o time tem passado por algumas dificuldades, vejo o Gabriel como esse tempero que está faltando para o City. A estrela dele é muito grande, então ele pode chegar e arrebentar, o que nos deixaria ainda mais orgulhosos.