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Guardiola focado em aspectos táticos

TALKING TACTICS: Pep delivers orders on the touchline
Pep Guardiola chega a Manchester com uma incomparável reputação de inovador da tática do futebol moderno.

É verdade que os times comandados por ele jogam bonito. Mas será que toda a filosofia futebolística que embasa seu trabalho será adaptada ao City e à Premier League?

Analisamos alguns dos pilares táticos que sustentam as equipes do técnico espanhol e especulamos sobre como eles poderão ser aplicados em seu novo clube.

Pirâmide 2-3-5

Enfrentar times retrancados, com muitos jogadores no campo de defesa tentando conter a pressão adversária, é algo inevitável quando um técnico está no comando de clubes superpoderosos como o Bayern ou o Barcelona.

Para lidar com isso, Guardiola vem experimentando uma formação 2-3-5, com dois zagueiros fixos, um volante e dois defensores mais livres para avançar até a intermediária mas que recuam rapidamente para dar proteção à entrada da área defensiva quando seu time perde a bola, dois “camisas 10” (meias-atacantes), dois atacantes que caem pelas pontas e um centroavante.

Este esquema de jogo foi comum nos primórdios do futebol, no final da década de 1890, tendo se popularizado quando o Uruguai utilizou-o para ganhar a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de 1924 e 1928, bem como a Copa do Mundo de 1930.

O que tornou possível fazer com que essa estratégia funcione nos dias de hoje é a confiança na triangulação em velocidade, que se mostrou viável em virtude das grandes habilidades técnicas dos jogadores de Guardiola, bem como o empenho em recuperar a posse de bola rapidamente, ainda no campo de defesa do adversário, para se proteger de um contra-ataque.

Mudanças

Quando Guardiola assumiu o Bayern de Munique, houve uma avalanche de reportagens de jornal fazendo comparações entre os jogadores do poderoso clube alemão e os ex-comandados do treinador no Barcelona.

Para reforçar seu elenco, ele trouxe apenas um jogador com quem havia trabalhado em seu clube anterior: Thiago Alcântara.

A razão para isso foi que o treinador queria trabalhar com os recursos que encontrou em Munique. Afinal, o Bayern havia acabado de ganhar a tríplice coroa.

Phillip Lahm já tinha jogado no meio de campo quando era mais jovem. Porém, quando Guardiola assimiu, em 2013, Lahm era considerado apenas como um dos melhores defensores do mundo (se não o melhor).

Causou estranheza quando o técnico espanhol resolveu transformar Lahm em seu “pivote” – o jogador que atua logo à frente da defesa –, mas ele se mostrou uma grata revelação nessa função durante as duas primeiras temporadas de Guardiola na Alemanha.

“Ele é talvez o jogador mais inteligente que já comandei ao longo da minha carreira como treinador. Está em outro nível", declarou Guardiola.

O célebre técnico já realizara experiências desse tipo quando transformou Javier Mascherano de um dos melhores meio-campistas da Europa num dos melhores defensores.

Será que vai haver alguma inesperada mudança de posicionamento de algum dos jogadores que trabalharão com Guardiola em Manchester? Está aberta a temporada de especulações!

Uma mistura para a Premier League

Quando chegou a Munique em 2013, muitos esperavam que Guardiola buscaria transplantar para o Bayern os ideais que imprimiu ao seu espetacular Barcelona, que conquistou quase todos os títulos que disputou, mas ele resolveu fazer algo muito mais interessante.

O grande estrategista não estava interessando em simplesmente replicar um modelo vencedor em seu novo clube, mas absorver um pouco daquilo que havia feito a grandeza da liga de futebol alemã, aproveitando as características da equipe que passaria a comandar para criar algo novo: uma combinação de suas próprias concepções acerca do posicionamento dos jogadores e da posse de bola com a fisicalidade e força atlética dos alemães.

Embora se percebessem claramente vestígios de seu Barcelona no Bayern que ele comandou por três anos – um único pivô à frente do quarteto defensivo (a “função de Busquets”), os falsos camisas 9 e os defensores (nominais) jogando pelas laterais do campo –, havia novos ingredientes nessa mistura, incluindo uma ênfase crescente no jogo pelos lados do campo e cruzamentos para a área.

Fala-se muito de Guardiola como um técnico analítico que primeiramente buscou compreender a nova cultura futebolística para absorvê-la e depois utilizá-la nos times sob seu comando.

Neste momento, é natural que haja grande expectativa para saber se ele vai fazer o mesmo no Campeonado Inglês, dando seu próximo grande passo adiante.

Dominando o centro

Depois que o Bayern derrotou o Arsenal por 5x1, em Novembro de 2015, Guardiola disse: “O que eu quero, o meu desejo, é ter 100% de posse de bola”.

Como mencionado acima, a posse da bola tem sido algo fundamental nas estratégias de jogo do treinador, seja no Barça, seja no Bayern.

Quando jogava no Camp Nou, o tempo impressionante de posse de bola do time da casa atingiu níveis sem precedentes com Sergio Busquets, Xavi e Andres Iniesta, o grande trio de meio-campistas que fazia a bola rodar enquanto trocava de posição, girando em torno do meio-campo adversário.

Mas que não se fale mais no “tiki-taka” ao alcance dos ouvidos do novo comandante do City...

Apesar de esse termo ser muitas vezes aplicado ao time de Guardiola, ele muitas vezes se irrita com a definição, ao menos quando ela é usada como uma insinuação de que seu time mantinha a bola nos pés somente pelo prazer de retê-la ou como uma estratégica defensiva.

Na visão de Guardiola, para dominar o centro do campo é preciso muito mais que ficar trocando passes curtos para lá e para cá. Também é preciso recuperar a bola rapidamente, pressionar o adversário com intensidade e jamais permitir que o oponente aja sobre áreas vulneráveis de sua equipe.

O falso camisa 9

Guardiola não foi o primeiro técnico a instituir o falso camisa 9. A primeira vez que se fez uso de um centroavante que se deslocava de sua posição foi nos anos 1930, quando Matthias Sindelar, atacante do “time dos sonhos” da Áustria, fazia isso.

Passados 80 anos, no dia 2 de maio de 2009, o treinador catalão escalou um falso camisa 9 quando o Barcelona foi enfrentar o Real Madrid no Santiago Bernabeu.

Se não foi o inventor da função, ele certamente a redefiniu e a reatualizou para o século 21, quando decidiu escalar Lionel Messi para fazer esse papel no grande clássico do futebol espanhol, aos dez minutos da etapa inicial.

A ideia surgiu-lhe no dia que ele tradicionalmente passa em seu escritório, na véspera de cada jogo, ocasião em que analisa o adversário da vez e traça sua estratégia para a partida.

Guardiola optou por fazer com que Messi se posicionasse na terra de ninguém localizada entre o meio-campo e a defesa do Real Madrid, sendo que o Barcelona jogaria sem nenhum atacante fixo.

Foi um golpe de mestre, fazendo com que Christoph Metzelder e Fabio Cannavaro não soubessem a quem marcar nem o quando poderiam abandonar a linha defensiva.

Mais tarde Metzelder disse comentou: “Fabio e eu olhávamos um para o outro: ‘O que vamos fazer? Devemos segui-lo até o meio-campo ou guardar nosso posicionamento?’ Não tínhamos a menor ideia”.

A partir de então os falsos camisas 9 proliferaram, tornando-se um verdadeiro lugar-comum, uma tática de jogo empregada por muitos técnicos ao redor do mundo, incluindo Vicente del Bosque, que conquistou muitos títulos com a seleção da Espanha. Mesmo o Manchester City de Manuel Pellegrini utilizava James Milner e Kevin De Bruyne desempenhando essa função.

De vez em quando Guardiola utilizava essa estratégia também no Bayern, com Franck Ribery e Thomas Müller, embora esta seja apenas uma das muitas opções táticas de seu vasto repertório.

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