Se por um lado Guardiola tem enxergado mais longe que a maioria dos técnicos, por outro ele será o primeiro a reconhecer que isso acontece porque um dia ele se sentou sobre ombros de gigantes.

Mesmo os maiores talentos a serviço do futebol precisam de referências, e o novo comandante do City teve a sorte de haver trabalhado com algumas das cabeças mais privilegiadas e mais inovadoras que o esporte bretão já produziu.

Entre eles, três se destacam. Aqui estão três das figuras mais influentes na carreira vencedora de Guardiola como treinador.

Johan Cruyff

“Eu não sabia nada até conhecer Johan Cruyff.”

Quando o mundo do futebol lamentou a perda de um dos seus maiores pensadores no início deste ano, Pep Guardiola prestou-lhe uma das homenagens mais emocionantes.

A história tem mostrado que os melhores jogadores nem sempre se transformam nos melhores técnicos, mas Cruyff tornou-se uma exceção a essa regra no início de 1990, quando passou a comandar um dos melhores times que o mundo já viu.

Seu Barcelona era o “Time dos sonhos” que conquistou 11 títulos em oitos anos, depois de atravessar um longo período em que venceu apenas um campeonado em 11 anos. Na maior parte dessa época de ouro, Guardiola foi o mestre do passe milimétrico na base do meio de campo da equipe de Cruyff – uma espécie de Xavi antes de Xavi.

O treinador holandês promoveu a estreia de Guardiola como jogador em 1990, depois de ele haver se formado nas categorias de base do clube catalão.

Antes de Cruyff, o Barcelona costumava selecionar jovens jogadores com base nas suas capacidades físicas, mas o treinador, inspirado pelas ideias do “futebol total” de Rinus Michels, seu ex-técnico no Ajax e na seleção holandesa, resolveu acabar com esse critério.

“Eu contava com tipos baixinhos como Albert Ferrer, Sergi ou Guillermo Amor, jogadores sem grandes recursos físicos mas que tratavam bem a bola com seu toque refinado e pressionavam o adversário como se fossem um bando de ratos”, disse Cruyff.

“Mesmo Guardiola não era tão forte fisicamente, mas tinha inteligência para saber o que fazer com a bola. Era o que eu queria.”

Sem ir muito longe nas inevitáveis especulações que acontecem após uma viagem no tempo, perguntamos: teria Guardiola se realizado como jogador do Barcelona sem a intervenção de Cruyff? Sem seu aprendizado com Cruyff, viria Guardiola a comandar um time que ganhou todos os títulos possíveis com um grupo de excepcionais jogadores formados nas categorias de base do clube catalão, como Xavi, Iniesta e Messi?

Nas palavras de Guardiola: “Johan Cruyff pintou a capela, e os treinadores do Barcelona que vieram a seguir apenas a restauraram ou a aperfeiçoaram.”

Juan Lilo

Quando Guardiola foi contratado pelo Al-Ahli, em 2003, aos 32 anos, muitos tomaram isso como um sinal de que sua trajetória como jogador estava chegando ao fim, achando que ele encerraria sua carreira no clube do Catar.

Por isso, foi uma surpresa quando ele decidiu assinar com o recém-fundado clube mexicano Dorados de Sinaloa por uma temporada, em 2005.

Pensando bem, no entanto, a mudança não era algo tão surpreendente, já que Juan Manuel Lilo, criador do sistema 4-2-3-1, era o treinador do time.

Embora a classe de Guardiola em campo ainda se mostrasse evidente nos 20 jogos em que atuou por seu último clube, ele já estava se preparando para uma carreira de treinador quando assinou contrato com os mexicanos, já tendo a educação como valor supremo quando chegou a Sinaloa.

Lilo era considerado um dos grandes filósofos do futebol, e Guardiola passaria a considerá-lo, juntamente com Cruyff, como um dos treinadores que mais o influenciaram.

Pep Guardiola passaria a levar consigo um caderno preto para os treinos todos os dias, tomando notas sobre as orientações daquele treinador que anteriormente trabalhara em Salamanca, Oviedo, Tenerife e Zaragoza.

Lilo não chegou a assumir oficialmente nenhuma função específica no Barcelona ​​quando Guardiola passou a comandar a equipe B, em 2007, em seu primeiro trabalho como técnico, mas Sid Lowe,  especialista no futebol espanhol, escreveu, na introdução de um entrevista com Lilo publicada em 2013 na revista Blizzard, que “suas impressões digitais estavam espalhadas por todo o projeto do clube”.

Lilo disse uma vez que não existe essa coisa de ataque e defesa. A seu ver, isso é “uma simplificação”.

E explicou: “Você não pode cortar um braço de Rafael Nadal e treiná-lo separadamente. Se você fizer isso, quando colocá-lo de volta, haverá um desequilíbrio, uma rejeição por parte do organismo. Como é que se pode ganhar força a partir do futebol fora do futebol?”

É fácil remontar a essa escola de pensamento quando se pensa no trabalho de Guardiola no campo de treinamento, onde, em vez de subdividir as funções e trabalhar com cada departamento separadamente, ele envolve todo o plantel na construção de um trabalho comum e organiza o time de modo que todos se posicionem adequadamente quando o time tiver a bola e também quando não a tiver.

Marcelo Bielsa

O capítulo sobre a trajetória de Guardiola como técnico do Barcelona encontraria seu desfecho quando ele enfrentou o Atlético de Bilbao de Marcelo Bielsa em seu último jogo como treinador do cluble, em 2012.

Era a final da Copa do Rei, que acontecia seis anos depois de Guardiola aprender muito com Bielsa antes de assumir suas funções no Barcelona B, quando fez uma peregrinação de 11 horas até a casa do treinador argentino, na América do Sul, onde os dois se tornaram amigos compartilhando suas concepções sobre futebol pela noite adentro.

Guardiola sempre teve grande afinidade com Bielsa, que tem o apelido de El Loco e é considerado um dos técnicos mais inovadores e não convencionais do futebol contemporâneo.

Tal como Guardiola, o argentino tem obsessão pelo futebol e, como diz a lenda, possui milhares de jogos em fitas VHS, tendo desenvolvido a capacidade de assistir a dois jogos em telas separadas simultaneamente.

Sua marca registrada é a formação 3-3-3-1, que utilizou em suas passagens pelo comando das seleções da Argentina e do Chile, bem como do Atlético de Bilbao e do Olympique de Marseille.

Fundamental para que esse esquema seja eficaz é a boa condição física dos jogadores e sua disposição para pressionar o adversário com agressividade quando perdem a bola, atacando em grupos de seis ou sete jogadores quando a retomam.

Com jogadores que se defendem e atacam em bloco, o esquema de Bielsa tem produzido um futebol dos mais emocionantes da era moderna. Embora ele não tenha ganhado tantos títulos quanto seu “aluno”, é sem dúvida um dos técnicos mais influentes hoje em dia.

Depois da vitória do Barcelona na final da Copa do Rei, na despedida de Guardiola do clube catalão, Bielsa exaltou humildemente o colega: “Depois de tanto sucesso e de tudo o que ele ganhou, é bom que se saiba quem é o mestre aqui e quem é o discípulo.”